sexta-feira, 1 de maio de 2026

Falar e também contar histórias promovem curas psíquicas

Falar e também contar histórias promovem curas psíquicas 

Hannah Arendt (1968), em uma homenagem prestada a Isak Dinesen (pseudônimo da escritora dinamarquesa Karen Blixen, 1885-1962), citou o que a romancista dissera sobre a dor: “todas as dores podem ser suportadas se você as puser em uma história ou contar uma história sobre elas.” (p. 115)

A dor é constitutiva da espécie humana, desde a função biológica protetora contra a automutilação, até a condenação divina à mulher pelo parto doloroso, ou mesmo pela referência à dor e ao sofrimento presentes na cultura, arte e religião. Assim, a dor sempre esteve presente nas formulações humanistas em geral e em particular, na Psicanálise, pela possibilidade de transformação, por meio da simbolização, das vivências humanas geradoras de sofrimento de modo a lhes dar sentido.

Segundo Fleming (2003), a distinção entre dor física e psíquica talvez seja um tanto artificial. Toda experiência de dor física traz repercussões psíquicas do mesmo modo que o sofrimento psíquico é também acompanhado por sensações corporais. É um problema complexo: dor física e dor mental, que remete para uma questão de grande pertinência que é a continuidade versus descontinuidade psiquismo-soma, o que observamos no percurso freudiano. Segundo a mesma autora, Freud introduziu o conceito na literatura psicanalítica como “dor na alma” (Seelenschmerz) e no Projeto (1895) passou a distinguir dor e sofrimento, dor e desprazer, dor e angústia, bem como a ligação entre dor e desamparo.

Para ele, a dor primordial é a condição de desamparo do bebê humano. Ao abandonar o Projeto e a concepção quantitativa, Freud passou a se dedicar ao estudo da angústia. Em Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental (1911), ele se pergunta de que depende a capacidade de tolerar a frustração; em Sobre o Narcisismo: uma Introdução (1914), aborda o investimento na dor corporal. Em Luto e Melancolia (1917) abordará a dor relacionada à perda do objeto amado. Mais tarde, em Mais Além do Princípio do Prazer (1920), Freud retoma a concepção quantitativa entre dor e prazer, bem como em O Problema Econômico do Masoquismo (1924). Finalmente, em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), utiliza a noção de dor interna e traz novas concepções teóricas, ao diferenciar dor corporal, narcísica, da dor mental, envolvida em uma relação de objeto e há um consenso de que a dor seja simultaneamente um fenômeno psíquico e somático.

O conceito de dor mental tem adquirido maior importância na teoria e na clínica psicanalítica, principalmente em função da contribuição de Bion (1963), que considera dor psíquica um dos elementos de psicanálise- a caixa de ferramentas do psicanalista, bem como a capacidade de continência e tolerância à dor, um dos pilares do desenvolvimento do indivíduo.

Bion empresta uma grande importância à dor psíquica, no sentido de que mais do que “sentir” a dor, é necessário “sofrê-la”, para poder vir a aprender com as experiências emocionais, no sentido de poder estabelecer correlações, reflexões e elaborações.

Todo indivíduo em geral, e particularmente o paciente na situação analítica, enfrenta duas alternativas diante da dor ocasionada pelas múltiplas formas de frustrações: ou ele foge da dor com alguma tática evitativa e evasiva, ou ele experimenta sensações dolorosas, tira um aprendizado com a experiência e isso o capacita a fazer transformações e modificações dos fatos frustradores. Para Bion, uma análise deve necessariamente ser dolorosa, não porque a dor em si tenha algum valor, mas sim porque esta dor já pré-existia no paciente e justamente ele procurou a análise para se ver livre dela.

Bibliografia Consultada
Arendt, H. (1968) Homens em Tempos Sombrios.
Bion, W.R. (1963) Elementos da Psicanálise.
Fleming, M. (2003) Dor sem nome – Pensar o sofrimento.
Freud, S. (1985) Projeto Para uma Psicologia Científica.
Freud, S. (1911) – Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental.
Freud, S. (1917) Luto e Melancolia.
Freud, S. (1926) Inibição, Sintoma e Angústia.

#psicanálise 

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Dr Vinícius M Ribeiro 
Naturopata, Homeopata e Psicanalista (crtp9179)
33999105125 ou vinimr1@yahoo.com.br.



Citação da imagem: "Todas as dores podem ser suportadas se as transformamos em história ou se contarmos uma história sobre elas. Karen Blixen, escritora. "

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